Comportamento

Moda e narcisismo

Sobre a polêmica das modelos magérrimas na São Paulo Fashion Week e essa “promessa” de flexibilização de padrões corporais nas revistas, me ocorreu um pensamento. Pode ser simplesmente viagem, mas…

Historicamente a moda acompanha a sociedade e por ela é acompanhada. Ou você acha que a meinha de lurex pegaria nos anos 70 se não houvesse todo um contexto disco? Ao mesmo tempo, toda a cultura das discotecas foi reforçada pela moda disseminada pela novela, instituição nacional.

(Parênteses: já disse que, pra mim, as pessoas mais poderosas da moda brasileira são Marília Carneiro e Emília Duncan, né? São top figurinistas da Globo)

Enfim, exemplos não faltam: Dior e a sociedade abalada (economicamente, politicamente e esteticamente) pela guerra, Chanel e as mulheres que passam a trabalhar e praticar esportes, Saint Laurent e suas provocações sexuais…

Posso estar equivocada, mas qual é uma das principais marcas desse início de século 21? Eu apostaria nessa espécie de narcisismo tecnológico que vivemos, em que as pessoas querem fazer parte da mídia, seja ela tradicional ou as chamadas “novas mídias”.

Jovens que mandam vídeos feitos por elas mesmas para os grandes portais e programas de TV — como o TVZ do Multishow, que jogam suas produções no Youtube, suas fotos no Fotolog e suas opiniões no Twitter. E a febre de realities? E os tais blogs de estilo de garotas e garotos comuns? É claro que as pessoas ainda buscam referenciais estéticos em modelos, atrizes e cantoras, mas não apenas. Hoje, elas vêem também a si mesmas.

E a maioria não veste 36.

(PS: sei que a internet, assim como a moda, vaga pelo terreno do “parecer”, mas isso é assunto para outro post)

Dois textos necessários

A edição de hoje da Folha de São Paulo deixou de lado aquela cobertura tradicional das semanas de moda, com descrição dos desfiles, entrevistas com estilistas e as “tendências que vão pegar”. Com textos precisos de Fernanda Mena, Nina Lemos, Alcino Leite Neto e Vivian Whiteman, a Ilustrada preferiu focar na magreza absurda das modelos que pisaram na passarela, a maioria delas ainda adolescentes. Um padrão que não é nem um pouco saudável, ainda menos brasileiro — somos mais curvilíneas do que as européias eleitas como referência androgína de beleza.

Merece palmas pela cobertura corajosa. Mas tiro pontos porque deveriam estar no online para que todo mundo pudesse ler, viu dona Folha? São textos necessários. Então dá-lhe Ctrl-C/Ctrl-V:

Hipermagreza domina passarelas da SPFW

Modelos muito esquálidas levam grifes

FERNANDA MENA
DA REPORTAGEM LOCAL
NINA LEMOS
COLUNISTA DA FOLHA

“Gente, o que é isso, essa menina está doente?” A frase, de um fashionista sentado na primeira fila de um desfile da SPFW, ilustra um espanto recorrente na atual edição do evento: as modelos estão mais magras do que nunca. Prova disso é que estilistas estão tendo dificuldades em montar seus “castings”, fazem ajustes de última hora e escolhem peças estratégicas que escondam os ossos saltados das modelos.
Na SPFW da magreza radical brilham modelos na faixa dos 18 anos, que têm índice de massa corporal, calculado pela Folha, igual ao de crianças de 9 anos. No mundo dos adultos, a Organização Mundial da Saúde chama esse índice de “magreza severa”.
A explicação vem da top Aline Weber, 21, que mora em Nova York e participou do filme “Direito de Amar”, de Tom Ford. “Três coleções atrás, no auge do pânico antianorexia, as pessoas pesavam as modelos no backstage para ver se elas estavam saudáveis. Agora, a poeira baixou. Se você engorda um pouco, todo mundo está ali pra te julgar. Se você emagrece, falam que você está linda.” Aline diz conhecer muitas meninas bulímicas e anoréxicas fora do Brasil. “As russas são as piores”, conta.
O stylist David Pollak identifica o padrão supermagro europeu como uma das causas da onda que atinge a atual edição da SPFW. “Muitas meninas estão trabalhando fora e por isso estão supermagras. Estão dentro do padrão de Paris, que é esquelético.”
A magreza radical fez com que ele tivesse dificuldades na hora de montar o “casting” da Cavalera. “A marca tem uma imagem mais adolescente, saudável. Por isso, peguei meninas que não são badaladas [leia-se, as que ainda não têm carreira internacional]. Outros stylists tiveram de fazer o improvável: dispensar meninas de suas seleções porque elas estavam magras demais.
A onda tem feito eles inverterem uma antiga lógica da moda: ao invés de avaliarem roupas ideais para esconder, por exemplo, um quadril mais largo, têm de descobrir os looks que vão ocultar um corpo esquálido. “As meninas muito magras causam problemas. Seus ossos apontam num vestido de seda mais fluido. Ou seus corpos, muito estreitos, deixam a proporção toda estranha”, avalia o stylist Maurício Ianês.

Muito café
O estilista Reinaldo Lourenço não só percebe a hipermagreza das modelos desta temporada como também conta que teve que fazer hora extra por conta do fenômeno. “Tive que fazer vários ajustes de última hora em roupas que ficaram largas nas meninas, o que me deu o maior trabalho”, diz. Segundo ele, isso acontece porque a atual safra de modelos é “muito jovem”.
Nos camarins, longe da mesa de salgadinhos e quitutes -relegada aos jornalistas-, modelos desfilam com copos de café. “Identifico as mais magras como a turma do cafezinho, já que elas passam o dia todo tomando café para não comer e ficarem ligadas”, diz Pollak. Em entrevistas, elas escondem o peso e as medidas. “Não sei quanto peso. Nunca subo na balança”, disfarça uma delas.
Cristina Theiss, 18, jovem aposta da Ford Models, teoriza: “Para fazer passarela de inverno, precisa ser mais magrinha mesmo, porque as roupas são volumosas, enchem demais”. Para agências de modelos, o assunto ainda é tabu. Ou foi deixado de lado. “Magreza? Anorexia? Mas que assunto antigo, datado!”, diz um agente, interrompendo a entrevista da Folha com uma modelo. Basta olhar para as passarelas para ver que não é.

[http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2001201025.htm]

Moda tem que parar de sacrificar modelos

ALCINO LEITE NETO
EDITOR DE MODA
VIVIAN WHITEMAN
DA REPORTAGEM LOCAL

Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão desencarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.
Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.
Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.
Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional -indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.
Alguns, mais sinceros, dizem que não querem “gordas”, com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de “cabides de roupas”.
Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.
Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas.
Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.
Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia.
O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são “as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto”. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.

[http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2001201026.htm]

Qual é o nosso corpo?

“O corpo é a melhor ferramenta para aferir a vida social de um povo”
Levi Strauss.

Editorial "Curves Ahead", da V Magazine

Editorial "Curves Ahead", da V Magazine

O que o famoso antropólogo recentemente falecido quis dizer é que o corpo não é apenas osso, músculo, sangue e gordura. É antes de tudo uma construção cultural. Então quando uma revista como a V Magazine lança uma edição com dois editoriais de moda com modelos consideradas gordas em meio a modelos consideradas magras, a gente tem que prestar atenção. Afinal nosso modo de vida está ligado ao mundo da informação. Será que a nossa sociedade dá sinais de mudança?

Na mesma revista, o editorial "One Size Fits All"

Na mesma revista, o editorial "One Size Fits All"

Costuma-se puxar os quadros do Renascimento para valorizar a mulher gorda, mas nem sempre se fala do porquê aquele ser o padrão da época. Até meados do século XVII, quem tinha um corpo magro, tonificado e bronzeado era evidentemente um trabalhador braçal de sol a sol, que não tinha comida em casa. A nobreza era branca e volumosa. Daí toda a graça ser branca, gorda, cheia de dobras e de preferência flácida.

Quando o mundo do trabalho se configurou tal como o conhecemos, é que aparecer bronzeado virou símbolo de status. Significava ter condições de passar as férias fora da cidade, ter casa na praia. Chanel deu uma grande força também, quando voltou cheia de cor de uma temporada de verão. A magreza é mais recente, de meados dos anos 60, quando fizeram sucesso Twiggy e Audrey Hepburn. Gilles Lipovetsky, autor do sempre citado “Império do Efêmero”, acredita que a magreza encontrou adesão tão rapida porque foi libertadora no contexto do período. As formas arredondadas remetiam à maternidade e ao papel meramente reprodutor da mulher.

"As Três Graças", do renascentista Rubens, e as medidas enxutas de Twiggy, em 1965

"As Três Graças", do renascentista Rubens, e as medidas enxutas de Twiggy, em 1965

Se a gordura já foi sinônimo de fartura, boa vida e consequentemente de beleza, hoje muitas pessoas vivem com uma série de valores negativos a elas atribuídos pelo único fato de serem gordas. Gordura hoje é vista como fraqueza de gente preguiçosa, indisciplinada, sem força de vontade, com auto-estima baixa, pouco saudável e por aí vai. Vamos lembrar o que é “sarado”. A gente fala a gíria por aí sem pensar, mas sarado significa curado, livre de doenças. Para a nossa sociedade, gordura seria uma doença, então. Absurdo. Para a mulher, os desvios desse padrão jovem, magro e saudável são vistos com menos tolerância ainda.

Ainda mais porque, como nos lembra o linguista e semioticista José Luiz Fiorin, o corpo deixou de ser visto pela sociedade como uma dádiva divina, um presente irretocável, um templo sagrado. Nada disso parece mais fazer muito sentido. Pelo contrário, hoje o corpo é um projeto humano, em que eu posso aumentar aqui, afilar ali, tirar de um lugar e colocar em outro, cortar, marcar, mudar a cor… Sempre lembro do monólogo da Agrado em “Tudo Sobre Minha Mãe”, quando falo disso.

"Vejam que corpo, todo FEITO à perfeição"

"Vejam que corpo, todo feito à perfeição"

Nós somos responsáveis pela nosso corpo, portanto. Por isso somos cobrados para melhorá-lo, embelezá-lo, potencializá-lo. E o discurso da auto-estima cai como uma luva, né. Mas até que ponto cabe o prefixo “auto” nessa estima? Lembro-me de uma entrevista de uma atriz capa da Playboy (acho que foi a Marisa Orth) que se dizia mais à vontade no estúdio do que em um encontro romântico, porque entre quatro paredes não havia Photoshop. Ou seja, olha que loucura, não é mais questão de pudor, não é a nossa nudez que nos envergonha, mas a aparência da nossa nudez, a nossa nudez não perfeita.

Eu gostaria de acreditar que, sim, que nosso corpo cultural está mudando. Não só por uma edição da V Magazine ou por uma revista sem Photoshop, mas por outras experiências aqui e ali, que vão se somando.  Desde algumas campanhas publicitárias (Dove, Natura) até seriados como Ugly Betty e Drop Dead Diva, em que o peso é até personagem, mas não é protagonista.

Drop Dead Diva

Drop Dead Diva

A Globo discretamente tem inserido em suas novelas atrizes “acima do peso”. Embora tenhamos que fazer a ressalva que elas estão lá para fazer personagens de gente gorda, não personagens simplesmente. Mas já é um avanço. Porque eu achava deprimente atriz com enchimento. Me lembra os primórdios da TV brasileira, com o Sérgio Cardoso pintando a cara para interpretar um negro.